Oi pessoas que chegaram para espiar

Sejam bem vindos!

Espero que curtem o meu blog

Só não esqueçam de comentar... ;)*-*



Tragicomédias da vida privada


O tipo de lente que voçê usa para enchergar os acontecimentos é o diferencial entre rir ou chorar quando o mundo parece desmoronar a sua volta.



POR MILLY LACOMBE


Havia, na área de seviço onde morávamos, um armário sem portas, no qual guardávamos garrafas de Coca-Cola vazias. Isso, claro, no tempo em que para comprar refrigerante, era necessário dar cascos vazios em troca. Como o tal depósito era improvisado, o impilhamento circense não apenas se apresentava como única solução, mas era também extremamente perigoso - as garrafas cheias descansavam por baixo de outras vinte vazias. O problema, claro, não eram cortes, hemorragias ou qualquer outra emergência hospitalar que resultasse do desmoronamento. nada disso fazia frente ao perigo de ser alvo da fúria de minha mãe, que cansava de alertar para o risco do desabamento e exigia que se tirasse garrafa por garrafa, para se chegar ás cheias. por mais medo que tivéssemos dela, ninguém tinha tempo para esse exercício budista. Só que, durante anos, o que parecia ser um enevitável acidente, nunca aconteceu. Na verdade adquirimos invejável técnica para manejar a garrafa de baixo sem sequer ameaçar a de cima. mas é exatamente quando a vida parece alcançar ritmo constante e previsível que tudo desmorona.Ataque aéreo.
Numa cabalística madrugada, meu pai, com sede e cansado, foi até a área de serviço pegar sua Coca-Cola. O que se houviu, do meu quarto (dormia com minhas duas irmãs), foi o que talvez se assemelhe a um ataque aéreo. O arrepiante barulho, a princípio um estalo, foi rapidamente ganhando ritmo e força. Passados os primeiros segundos, ficou claro que se tratava das garrafas da área de serviço. Tinha acontecido. os vasilhames ainda se espatifavam quando notamos a minha mãe em marcha bélica rumo a tragédia. Temi pela vida de meu pai. Mas estava mais preocupada em salvar a minha. Me afundei na cama, puxei o lençol até os olhos e fiquei esperando alguém dizer alguma coisa e romper com o silêncio cruel que se seguiu aos estouros. Nada. o que era extremamente preocupante, porque só uma coisa superava a cólera verbal de minha mãe: seu silêncio crítico, acompanhado do olhar sobrenaturalmente ameaçador. era isso que devia estar acontecendo naquele momento. Isso ou o corpo de meu pai soterrado por fragmentos de vidro. Finalmente, minha mãe saiu rompendo impropriedades que certamente puderam ser ouvidas nos bairros vizinhos. Não dava para entender muito, mas ouvimos que não havia uma garrafa inteira, que aquilo era uma catástrofe e que a ajuda de meu pai não se fazia necessária - que ele fosse catar cacos no inferno. Começamos a tremer coletivamente. Era óbvio para nós três que aquele episódio acabaria em divórcio, que teríamos que optarentre morar com ela ou com ele, que teríamos que nos separar - dois com um, dois com outro. Em pânico começamos a chorar copiosamente. Quando já não tínhamos mais lágrimas, a porta do quarto foi aberta. era ele, talvez para dizer adeus. Ao contrário das garrafas, estávamos inteirinho. Sério, olhou para um de nós e disparou: "Meninas, foi lindo, um espetáculo. As garrafas caíram uma sobre as outras poeticamente. Lindo, lindo!". Deu uma gargalhada e saiu. Olhei para minhas irmãs sem saber o que pensar. Aquilo afinal, era uma tragédia ou uma comédia? Ríamos ou chorávamos?
E foi dessa forma, aos onze anos que aprendi que cabe a nós conferir conotações trágicas ou cômicas ao acontecimento, filosofia que uso para lidar com tudo até hoje, até a morte dele, meu pai.
A propósito, foi justamente porque ele me ensinou sobre a possibilidade de usar a lente do humnor em acontecimentos aparentemente calamitosos, que me permitir ver graça em seu velório. se não me engano ele também estava rindo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

 
Follow the editing instructions after the // and within the to customize the script, then copy and paste it into your HTML editor.